Desbravadores de Palavras

Desbravar novas terras, com a escrita no volante, é como partir numa aventura épica rumo a um admirável mundo novo.

As experiências — imaginadas ou vividas, ou ainda um pouco de cada — quando atravessadas pelo olhar de quem ama as palavras, transformam-se em histórias empolgantes. Cada lembrança ganha contorno, cada invenção ganha fôlego, cada exagero bem colocado encontra seu lugar. Afinal, quando o interlocutor tem amor pela escrita, apreço por ela e cuidado com suas curvas, até as pequenas vivências podem se tornar narrativas dignas de serem lidas. E, quem sabe, de voarem.

Cá entre nós, este humilde escriba sempre quisera ser escritor. E, em tempos de inteligência artificial, nada mais justo do que tentar aperfeiçoar a própria escrita — ainda mais para sê-lo com alguma dignidade. Carecemos agora, não obstante aos textos escritos pelas máquinas, de humanos escritores: gente que ainda se aparta da tentação de entregar às engrenagens aquilo que nasce da memória, da emoção, do tropeço e da carne.

Ora, vamos mesmo deixar que robôs deem vida às nossas lembranças mais íntimas? Que organizem nossas dores, nossos espantos, nossas paixões, nossas cenas mais absurdas e bonitas?

Não, meus caros leitores.

Queremos ser, agora, uma espécie de super-humanos sem superpoderes. Homens e mulheres que, justamente por abdicarem dos poderes fáceis das máquinas, aceitam o desafio de escreverem por si mesmos, sem subterfúgios. Como os antigos faziam. Ou, ao menos, como imaginamos que faziam: com tempo, silêncio, coragem, rabiscos, hesitações e umas tantas linhas mal traçadas até que alguma beleza se anunciasse.

Oxalá pudéssemos escrever como antes da invenção das máquinas. Mas já que não podemos voltar no tempo, talvez nos reste algo ainda mais interessante: escrever apesar delas. Escrever com consciência do mundo em que vivemos, mas sem abrir mão daquilo que nos torna humanos. Dar mais brilho, tom e intenção às palavras. Colocar mais poesia num tempo cada vez mais cheio de inteligências artificiais e cada vez mais carente de sagacidades humanas.

Desenvolver a escrita criativa é dar asas às palavrinhas. É permitir que caracteres e tipografias deixem de ser apenas sinais gráficos e passem a respirar como personagens. É transformar frases em caminhos, parágrafos em paisagens, memórias em territórios, pensamentos em pequenas embarcações lançadas ao oceano.

E talvez seja isso que ainda me encanta tanto: a possibilidade de mergulhar fundo num mar cheio de mistérios a serem desvendados. Enxergar além das obviedades. Dar vazão aos sentimentos escritos. Encontrar, em meio ao ruído do mundo, alguma voz própria — ainda que vacilante, ainda que imperfeita, ainda que às margens dos 50 anos.

Porque escrever, no fundo, é reviver um amor adolescente. É sentir de novo aquele impulso meio ingênuo e meio grandioso de acreditar que uma frase pode mudar alguma coisa. Nem que seja apenas dentro de quem a escreve. Nem que seja apenas dentro de quem a lê.

E se houver leitores dispostos a embarcar nessa travessia, melhor ainda.

Que venham, então, as histórias. As vividas, as inventadas e as que ficam ali no meio do caminho, onde a realidade e a imaginação se dão as mãos. Que venham os personagens, os cenários, os tropeços, os exageros, as descobertas e as pequenas epifanias.

Este humilde escriba segue por aqui, tentando dar vida às palavras.

E torcendo para que elas, uma vez soltas no mundo, encontrem seus próprios voos.

estetix
Author: estetix

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